O hábito do Império que o Brasil deveria recuperar: passear, conviver e ocupar os espaços públicos
9/19/20264 min ler
Imagine uma cidade onde, ao final da tarde, famílias saem de casa para caminhar por uma praça arborizada, jovens praticam atividades físicas, crianças brincam ao ar livre e, em determinados dias, uma banda toca música enquanto as pessoas conversam e aproveitam o espaço público. Não estamos falando necessariamente de uma cidade europeia atual. Esse tipo de experiência também fez parte da cultura urbana brasileira e ganhou força durante o século XIX.
No Brasil Imperial, jardins, praças e passeios públicos passaram a ocupar um lugar importante na vida das cidades. O contato com a natureza, a caminhada, a convivência social e o entretenimento ao ar livre eram associados a uma ideia de cidade mais saudável, agradável e civilizada. O Passeio Público do Rio de Janeiro, criado ainda no século XVIII e remodelado no século XIX, tornou-se um dos exemplos mais conhecidos desse modelo.
A ideia não era simplesmente construir uma praça bonita. Esses espaços deveriam fazer parte da vida cotidiana.
O passeio como hábito
Durante o século XIX, as cidades brasileiras passaram por transformações que modificaram a relação das pessoas com os espaços urbanos. Jardins, parques, alamedas e praças arborizadas começaram a ser incorporados ao planejamento urbano, acompanhando preocupações com higiene, salubridade, beleza e lazer.
O próprio nome “Passeio Público” revela uma finalidade que hoje pode parecer simples, mas que tinha grande importância: oferecer à população um lugar apropriado para caminhar, encontrar outras pessoas e desfrutar da cidade.
Em Curitiba, por exemplo, o Passeio Público inaugurado em 1886 tornou-se um espaço de divertimento e sociabilidade. Além da arborização e dos caminhos, recebeu iluminação, mobiliário e um coreto destinado a apresentações musicais. A música ao ar livre fazia parte das formas de entretenimento associadas a esses espaços.
Em São Paulo, o Jardim da Luz também se tornou um importante local de passeio e convivência. Apresentações de bandas, festas e concertos ajudavam a transformar o jardim em um espaço de encontro entre diferentes atividades da vida urbana.
Era uma cultura de sair de casa para viver a cidade.
Não era apenas lazer
Talvez essa seja a parte mais interessante para o Brasil atual. Os jardins e parques do século XIX eram associados não apenas ao entretenimento, mas também à saúde, à educação e à chamada cultura física. Caminhar, praticar exercícios, contemplar a natureza e passar algum tempo ao ar livre faziam parte de uma nova maneira de pensar a vida urbana.
Havia inclusive projetos que imaginavam espaços públicos reunindo jardins, parques, música, jogos, exercícios físicos, equitação e natação. Em 1857, uma iniciativa autorizada pelo governo imperial chegou a propor justamente um complexo desse tipo no Rio de Janeiro.
A ideia continua extremamente atual.
Hoje, muitas pessoas passam grande parte do dia dentro de casas, escolas, escritórios, fábricas ou veículos. O tempo de convivência presencial também compete com celulares, redes sociais e entretenimento digital.
Nesse cenário, uma praça bem planejada pode oferecer algo que uma tela não oferece: um espaço físico para as pessoas se encontrarem.
E se recuperássemos esse hábito?
Não seria necessário copiar literalmente uma praça do século XIX. O Brasil atual possui necessidades, tecnologias e cidades muito diferentes. Mas poderíamos recuperar o princípio.
Imagine praças de bairro com árvores, bancos confortáveis, iluminação adequada, caminhos para caminhada, áreas para crianças, equipamentos de exercício, pequenos jardins, espaços para leitura e locais destinados a apresentações culturais.
Em determinados dias, poderiam existir concertos gratuitos, apresentações de bandas, exposições, feiras de livros, atividades esportivas e eventos comunitários. A praça deixaria de ser apenas um lugar de passagem. Ela voltaria a ser um destino. E isso poderia ser feito tanto em grandes parques quanto em pequenos espaços entre ruas e bairros.
Uma tradição que pode ganhar uma nova forma
Uma das grandes lições da história dos passeios públicos brasileiros é que a qualidade de uma cidade não depende somente de grandes obras.
Às vezes, ela também está na existência de um lugar agradável a poucos minutos de casa.
O estudo histórico sobre Curitiba mostra justamente como parques, jardins, hortos, praças e ruas arborizadas foram associados a novas formas de lazer, educação, saúde e convivência urbana.
É possível imaginar, portanto, uma espécie de “cultura do passeio” brasileira moderna: sair para caminhar, encontrar vizinhos, levar os filhos à praça, praticar exercícios, ouvir música, ler, conversar e simplesmente passar algum tempo fora de casa.
Não seria uma volta ao passado.
Seria recuperar uma ideia antiga e adaptá-la às necessidades do presente.
Uma cidade onde as pessoas querem ficar
Existe uma diferença enorme entre uma praça que simplesmente ocupa um espaço no mapa e uma praça que realmente faz parte da vida de um bairro.
A primeira pode ter concreto, alguns bancos e árvores.
A segunda possui movimento, cuidado, atividades e pessoas.
No século XIX, administradores e intelectuais já percebiam que jardins e parques poderiam contribuir para transformar a experiência urbana. Ao longo do tempo, esses espaços também passaram a receber críticas quando estavam abandonados, sujos ou malcuidados — mostrando que criar um espaço público é apenas o primeiro passo; mantê-lo vivo é igualmente importante.
Talvez essa seja uma das tradições do Brasil Imperial que mais mereça ser discutida atualmente.
Não porque tudo naquela época fosse melhor — longe disso —, mas porque algumas ideias permanecem úteis independentemente do regime político ou do século em que vivemos.
Uma cidade precisa de lugares onde as pessoas possam simplesmente viver.
Caminhar. Conversar. Ouvir música. Praticar esportes. Ler. Encontrar outras pessoas. E aproveitar a própria cidade. Talvez recuperar esse hábito seja uma das maneiras mais simples de transformar espaços públicos em lugares novamente importantes para a vida cotidiana dos brasileiros.
BRASIL IMPERIAL
Conhecer o passado, para construir o futuro.
Redação
Flávio Ferreira
Minas Gerais, Brasil
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